Em Busca da Nação, o mais novo livro do antropólogo baiano Antônio Risério, propõe uma reflexão crítica sobre a formação da identidade nacional brasileira. Na supracitada obra, o autor aborda questões como cultura, mestiçagem, modernidade, raça e nação. De fato, Risério é um crítico das políticas identitárias, na medida em que o enviesamento da identidade por ideologias racialistas impede o reconhecimento da nossa verdadeira cultura miscigenada e, por conseguinte, nos afasta da possibilidade de construção de um projeto nacional capaz de resgatar a nossa autêntica identidade como nação.

Quando refletimos sobre identidade nacional, nação e cultura, não raras vezes se confunde a defesa dos valores nacionais – compreendidos como cultura, território e religião – com nacionalismo extremo ou mesmo sentimentos xenófobos. Muitas vezes, essa confusão advém do desconhecimento do significado de nação. Ao perguntar “o que é a Nação?”, a resposta está longe de qualquer simplicidade. No entanto, é inegável que, ainda que não se saiba defini-la conceitualmente, o sentimento que liga o indivíduo à sua pátria a reconhecerá. No contexto abordado por Risério, a nação é uma construção histórico-cultural ativa, e não uma essência racial. Trata-se de uma invenção eficaz, que não pode ser tratada levianamente. Risério parte de uma visão construtivista e política da identidade e rejeita qualquer conceito que tente atribuí-la a noções biológicas. A identidade de uma nação, para Risério, forma-se a partir da experiência compartilhada e da cultura de um povo. Nesse sentido, para resgatar a identidade nacional, é preciso buscar na sociedade civil um debate sério e responsável sobre o tema, despindo-se das ideologias identitárias e das políticas raciais, com o objetivo de conduzir a sociedade à reflexão sobre os caminhos que devemos trilhar em busca da Nação.

Para Risério, o primeiro passo dessa jornada é reconhecer a mestiçagem como o núcleo da formação histórico-cultural do nosso povo. Em sua concepção, o Brasil deve se reconhecer como uma nação mestiça, e não fraturada racialmente, pois a mestiçagem é constitutiva da identidade brasileira. O autor propõe uma síntese que integre a sociedade brasileira não como um “gueto identitário”, pois rejeita qualquer ideia que fragmente a sociedade em partes discriminatórias, mas como um corpo coletivo que compreenda a mestiçagem como a nossa singularidade nacional. Isso se evidencia em suas críticas às visões identitárias nutridas pela esquerda, que não vão além das construções norte-americanas sobre o conceito de raça, desdobradas em teorias críticas identitárias. Um projeto de nação não se sustenta sem a consideração da nossa verdadeira identidade mestiça, adverte Risério. O discurso racial no Brasil não reflete nossa realidade. Pelo contrário, ele envereda por discursos vitimistas e políticas identitárias reparatórias que negam nossas origens e, paradoxalmente, fortalecem o racismo que se pretende combater.

O que pretende Risério com esta obra? Uma nova forma de nacionalismo cultural? Na realidade, sua proposta consiste em resgatar elementos do pensamento integrador de figuras como Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre. Diferente da política promovida pelos nossos últimos governantes – marcada pelo lema “nós contra eles” -, o Brasil precisa de fato de união. Isso vai muito além do slogan “união e reconstrução”. Necessitamos de uma política que eleve o espírito do povo brasileiro, fortalecendo sua autoestima não pelo futebol, mas pela educação elevada e construtiva, formadora de verdadeiros cidadãos que amem sua pátria, seu povo e defendam sua história e sua cultura reais, sem ficções ou ideologias. Não se trata de viver isolado do mundo, mas de reconhecer que o multiculturalismo deve valorizar a cultura de um povo, e não transformá-la conforme conveniências externas. É nesse contexto que Risério critica “as modas” comportamentais importadas dos Estados Unidos e que influenciam a cultura brasileira. Cada povo tem suas peculiaridades, que o tornam único. Falar de racismo, indigenismo ou “gayzismo” sem considerar as culturas, os costumes, as religiões e as políticas locais tem se mostrado um problema que gera outros problemas – a exemplo da violência racial, que parece aumentar quanto mais se tenta combatê-la – evidenciando que os instrumentos propostos para mudança estão equivocados. Risério é acusado por críticos de minimizar o racismo estrutural no Brasil. A leitura atenta de sua obra revela o contrário: o que ele busca é o reconhecimento da soberania do povo com base em suas origens, bem como uma rejeição clara do vitimismo.

A crítica que Risério faz ao racismo estrutural como uma das fontes da desagregação nacional é mal recebida por grande parte dos acadêmicos, intelectuais e, sobretudo, pelos militantes dos movimentos negros. Para esse grupos, Risério é visto como um traidor por não endossar a ideia do racismo estrutural e por defender a mestiçagem como elemento fundador da única e verdadeira consciência nacional: a do povo brasileiro, diverso em suas culturas, mas unido numa síntese singular que só se encontra no Brasil. Pretende-se atribuir ao racismo uma visibilidade muito maior do que a que ele de fato merece. Não se nega que o racismo exista no Brasil – assim como em qualquer parte do mundo -, e não apenas entre brancos e negros, mas entre todas as cores e credos, como bem lembra Risério.

Concordo com Risério ao afirmar que o verdadeiro preconceito no Brasil não é o de cor, mas o de classe. Este não faz distinção de cor, mas de condições econômicas e status social. É fato que há brancos e negros pobres, e que esse é o maior problema social do Brasil: a pobreza. Isso revela que a esquerda antirracista deveria repensar seus pressupostos e, talvez, pautar sua luta no combate à desigualdade social, apostando na educação como o meio mais eficaz para superar a pobreza e, por consequência, o chamado “racismo estrutural”.

A obra Em Busca da Nação é, antes de tudo, um convite à reflexão sobre o Brasil que somos e o que desejamos ser enquanto povo. Antônio Risério defende uma identidade nacional baseada na mestiçagem como singularidade histórica e cultural, opondo-se às importações ideológicas que obscurecem a realidade brasileira. Suas críticas às políticas identitárias e ao vitimismo não negam o racismo, mas desafiam leituras que ignoram a complexidade da sociedade nacional. Ao propor uma revalorização da cultura popular, da história compartilhada e da educação como instrumento de emancipação, Risério nos oferece um projeto de país baseado na integração, e não na fragmentação.