Nas últimas décadas, as ciências que estudam o cérebro humano, anatômica e funcionalmente, obtiveram considerável avanço na compreensão dessa misteriosa massa de gordura com cerca de 1,4 kg. Nos anos 1990, os estudos sobre o cérebro humano deram um passo significativo ao desenvolver uma nova tecnologia capaz de escanear o cérebro animal de uma forma inédita. Trata-se da aplicação do fMRI (ressonância magnética funcional) na análise profunda do cérebro, abrindo um vasto caminho para a ciência da mente. As descobertas abalaram áreas como a psicologia e a sociologia, demonstrando que há mais mistérios entre o homem e a mente do que entre o céu e a terra. Graças a dispositivos como o fMRI, novas ciências surgiram, e com essas poderosas ferramentas tornou-se possível chegar ao conceito denominado de “novo consciente”, um emaranhado de teorias sobre o comportamento da mente e, consequentemente, sobre o comportamento humano.

Todas essas descobertas e possibilidades são apresentadas ao público no interessante livro intitulado “Subliminar: como o inconsciente influencia as nossas vidas”, do físico e escritor estadunidense Leonard Mlodinow. O autor mostra como o inconsciente influencia os nossos comportamentos e observa que a maior parte das ações de grande relevância para a evolução cognitiva nasce justamente no inconsciente.

Mlodinow explica que o cérebro humano é um grande quebra-cabeças e que o maior desafio é juntar as peças de como ele funciona. Para o autor, hoje somos capazes de estudar diretamente “os instintos humanos e observar as suas origens fisiológicas no cérebro”. A relação existente entre o consciente e o inconsciente e seus reflexos sobre o comportamento humano, apresentada pelo autor na parte I do livro, intitulada “O cérebro duplo”, evidencia o grande fluxo de percepções e pensamentos realizado nos planos consciente e inconsciente, o que o autor chama de “novo consciente”. Mlodinow explica que “nessa nova visão, os processos mentais são considerados inconscientes porque há parcelas da mente inacessíveis ao consciente por causa da arquitetura do cérebro, não por estarem sujeitas a forças motivacionais, como a repressão”. Embora o pensamento consciente tenha grande valor na criação de leis matemáticas ou no projeto de automóveis, Mlodinow ressalta que “só a velocidade e a eficiência do inconsciente podem nos salvar na hora de evitar picadas de cobra, carros que entram no nosso caminho ou pessoas que nos fazem mal”.

Quanto de realidade há no que enxergamos? Essa questão apresentada pelo autor sustenta que a realidade é a junção entre os sentidos e a mente. Não se trata de pensar a vida como no filme Matrix, mas sim refletir sobre a ideia de que a nossa percepção não se baseia apenas no que existe objetivamente. Segundo o autor, ela “é de alguma forma criada – e restringida – pelos aspectos gerais da mente”. Continuando, afirma que “não apenas uma ação automática, mas também inconsciente, desempenha grande papel em todos os processos”, e adverte: “enquanto a maioria das espécies não humanas pode sobreviver com pouca ou nenhuma capacidade de pensamento consciente, nenhum animal pode existir sem um inconsciente”, concluindo: “Graças a todo esse processamento, quando falamos ‘Eu vejo uma cadeira’, o que na verdade dizemos é que o nosso cérebro criou o modelo mental de uma cadeira”.

Todo o processo de enxergar uma imagem, ouvir um som ou ainda sentir pelo tato pressupõe uma gama imensa de atividades cerebrais muito bem orquestradas. Isso nos faz pensar que a memória tem um papel único nesse processo. Entretanto, o autor revela que a memória é isso e muito mais. Mlodinow esclarece que aquilo que vemos, sentimos e ouvimos é captado pelos respectivos órgãos e lançado ao consciente. Ele explica que “os detalhes devem primeiro ter captado nossa atenção consciente”, e que esse processo possui grande importância na lembrança e no esquecimento dos detalhes. Contudo, segundo o autor, o consciente da mente não consegue captar todos os detalhes, e por isso o que vemos é uma cópia esmaecida da realidade. Isso é assustador. Considerando suas explicações, o inconsciente participa da formação dessa imagem armazenada no cérebro, e considerando também que somos influenciados por nossas crenças e percepções, isso revela um grande perigo e explica, em parte, os conflitos e preconceitos humanos.

Para corroborar seus argumentos, Mlodinow expõe o caso de uma mulher estadunidense que foi estuprada e, ao fazer o reconhecimento facial do suposto agressor, identificou-o levando-o à prisão perpétua. Uma reviravolta no caso levou o condenado a um novo julgamento e à sua libertação, pois não era culpado do crime pelo qual fora acusado. Então, a vítima mentiu? Claro que não. Porém, em seu inconsciente, a fisionomia do estuprador estava nítida. O autor demonstra, com isso, o quanto a nossa mente é misteriosa, pois não resta dúvida quanto à sinceridade da vítima. Então, por que ela se equivocou? O autor adverte que “enquanto nossos olhos transmitem uma multidão de detalhes, nossa mente consciente não registra a maior parte deles”. Isso nos leva a inferir que nossa mente inconsciente registra detalhes que escapam à consciência. Trata-se de uma revelação fascinante sobre como o cérebro funciona e evidencia o quanto ainda é pouco o que sabemos a seu respeito, apesar dos avanços tecnológicos. Dessa maneira, o autor explica quais fatores levaram a vítima a apontar um homem inocente como autor do crime. O desdobramento do seu raciocínio à luz da neurociência é impressionante.

Segundo Aristóteles, “o homem é um ser social”. Em outras palavras, o homem está fadado a viver em grupos, em comunidade, a se relacionar. Essa ideia, dita há mais de 2.300 anos por aquele que consideramos o maior de todos os filósofos, fundamentou a sociologia, a antropologia e diversas outras áreas do conhecimento humano, sendo amplamente aceita como uma verdade incontestável. À luz da neurociência, Mlodinow explora a importância de sermos sociais. Segundo essa perspectiva, a aptidão que temos de compreender o comportamento passado de outras pessoas e prever como irão se comportar diante de circunstâncias presentes e futuras, embora possa ser notada em níveis rudimentares entre primatas, é encontrada em altíssimo nível nos seres humanos. Ainda segundo o autor, essa fonte de estudo da neurociência é denominada teoria da mente (ToM). Mlodinow afirma que, com isso, surge “o novo campo de neurociência cognitiva social, ou simplesmente neurociência social. É um ménage à trois, uma ‘relação a três’: psicologia social, psicologia cognitiva e neurociência”.

Em seu “Contrato Social”, o genebrino Jean-Jacques Rousseau disse que “o homem é produto do meio”. Ele investigou como o ambiente social e as experiências moldam a natureza humana e o comportamento individual. Émile Durkheim, em seu ensaio “Sociologia e Educação”, postulou que educação e religião eram coercitivas e externas, moldando o comportamento. O consciente e o inconsciente parecem ser respostas às forças externas que direcionam o indivíduo para um lado ou outro do espectro da natureza humana. Ambos são ferramentas que adaptam o indivíduo ao ambiente, seja lutando, seja fugindo. As reações inconscientes (subliminares) são uma vasta área de estudo da neurociência e da psicologia, que, quanto mais avançamos, mais mistérios revelam sobre nós, humanos.