O Ópio dos Intelectuais

Raymond Aron foi um filósofo e sociólogo francês e uma das mais brilhantes mentes  a examinar a filosofia esquerdista na Europa, sobretudo a dos anos 60 e 70 na Franca.  Segundo Aron, as ideias filosóficas e politicas da esquerda estavam apoiadas em mitos. Quais eram então esses mitos? Por quê os intelectuais tinham tanta paixão pelas utopias socialistas? Estavam eles alienados em seus próprios ideais? O debate filosófico entre ideologia e religião  levaria o fim da ideologia em nosso dias ou se fundiriam num conjunto de ideias que fragmentaria mais ainda a esquerda?

Estas e muitas outras questões do ethos político-filosófico de esquerda, Raymond Aron examina em O Ópio dos Intelectuais, livro publicado num dos momento de crise da esquerda, que o filósofo britânico Roger Scruton refere-se em seu livro  Pensadores da Nova Esquerda como o tempo em que esta se fragmentou. Aron analisa os mitos sob os quais se apoia este ethos:

A esquerda crer que é a salvação da humanidade e redentora de todo os seus pecados, e que munida de sua onisciência e onipresença pode “mudar todo o curso da história.”

“O mito da esquerda cria a ilusão de que o movimento histórico, orientado para um final feliz, acumula as conquistas de cada geração.” Aron

“Eles cometem o erro de imaginar uma continuidade fictícia, como se o futuro valesse mais que o passado, como se, tendo o partido da mudança sempre razão contra os conservadores, pudêssemos assimilar a herança e nos preocupar apenas com novas conquistas.” Aron

“Qualquer que seja o regime, tradicional, burguês ou socialista, nem a liberdade de espírito nem a solidariedade humana estão permanentemente garantidas. Somente a esquerda, na sua toada de sempre, evoca não a liberdade ou a igualdade, mas a fraternidade, ou seja, o amor.” Aron

“A linguagem da esquerda histórica triunfa, aparentemente, em nossa época: o espírito da esquerda morre quando a própria piedade se desloca em sentido único.” Aron

A revolução é o instrumento dos intelectuais para conduzir os oprimidos se libertarem das elites capitalistas. Sem revolução não há revolucionário e sem este não há como construir o “novo”. Os revolucionários destroem tudo que  tem alguma relação com velho mundo, custe o que custar, e em seu lugar constroem uma sociedade que só eles vêem, mas que convencem a todos os não iluminados da sua existência e perfeição.

“O mito da revolução tem um significado complementar e oposto, alimentando a expectativa de uma ruptura com o ritmo ordinário das coisas humanas. Aron

[…] As revoluções merecem ser tão valorizadas? Os que assim pensam não são os mesmos que as fazem… Será a revolução verdadeiramente o simbolo de uma humanidade senhora de si, uma vez que ninguém se reconhece na obra resultante deste combate de todos contra todos? Aron

[…] Sociologicamente, estão presentes os tracos essenciais: o exercício do poder por uma minoria que elimina de modo implacável os adversários, cria um Estado novo e sonha transfigurar a nação.” Aron

Aqui reside a verdadeira razão para a eterna luta dos intelectuais: a luta pelos proletariados. O sonho da intelectualidade esquerdista se sustenta sob o prometido paraíso para os proletariados, razão maior da sua existência. Todo o esforço das mentes privilegiadas no sentido de salvar o corpo e alma dos “oprimidos” e conduzi-los ao perfeito mundo virtual da intelectualidade de esquerda. Para isso a burguesia e as elites precisam desaparecer. Mas o que acontecerá com os proletariados neste paraíso? Aron responde.

“A escatologia marxista atribui aos proletariados o papel de salvador do coletivo. As expressões utilizadas pelo jovem Marx não deixam dúvidas quanto as origens judaico-cristãs do mito da classe eleita pelo seu sofrimento para a redenção da humanidade. Aron

[…] Nem foi tanto por esquecimento dos teoremas de Marx que se enfraqueceu a análise da alienação operária, e sim pela constatação de um fato evidente: várias queixas dos operários nada tem a ver com o sistema de propriedade. Elas permanecem as mesmas quando os meios de produção pertencem ao estado. Aron

[…] O que vem a ser a “promoção da classe operária” da qual o professor de filosofia nos garante, pessoalmente participar? …Essas reformas não elevam a classe operária ao primeiro escalão. O operário, em contato com a matéria, comprometido com a labuta cotidiana, talvez esteja protegido contra as torpezas daqueles que vivem no mundo da palavra. O progresso técnico não o “promove”, substituindo a mão pela máquina e o esforço físico pelo saber. O trabalhador manual desce na escala social não por culpa do capitalismo ou do socialismo, mas pelo determinismo na ciência aplicada a industria.”

Raymond Aron nos mostra que há vários problemas com o pensamento da esquerda. Aponta as incoerências das suas ideias e o fracasso das suas ações. Cabe-nos examinar a história que tentam apagar das nossas mentes, para que possamos fortalecer os alicerces que nos fizeram o que somos como seres humanos, falíveis, mas crentes em nossas capacidades de nos reerguer, estejamos ou não apoiados nas religiões ou ideologias. A nossa historia é a nossa identidade, nela estão contidos os valores que custaram a sobrevivência de muitas nações e a vida de milhões de pessoas. Não podemos jogar fora os valores que nos formaram.

Esta edição de O Ópio dos intelectuais foi publicada no Brasil em 2016 pela editora Três Estrelas e traduzida por Jorge Bastos

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